Quando dois dos mais celebrados nomes da nova cena instrumental brasileira se juntam, é possível dizer que este encontro representa uma Contínua Amizade, não só para os músicos em questão, mas para instrumentistas de todas as gerações anteriores. É este, precisamente, o caso do CD do bandolinista Hamilton de Holanda e do pianista André Mehmari, lançado pela Deckdisc, em parceria com o selo Brasilianos. De Pixinguinha a Egberto Gismonti, de Guinga a compositores da canção popular, tantas vezes revisitados pelos mestres das cordas, das teclas e dos sopros - Cartola, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola - revela-se ainda a amizade entre os universos da canção popular e da música instrumental. O encontro de Hamilton e André passa longe da mera exibição de virtuosismo. Ao contrário, a técnica se coloca a serviço da emoção, extraindo o que há de essencial na criação de um músico, ao mesmo tempo em que convida o ouvinte a prolongar a sensação de intimidade que o próprio título do álbum sugere. É o caso de “Rosa”, que abre o disco em clima camerístico, explorando as sutilezas da melodia escrita por Pixinguinha, na década de 20. Sutilezas estas que inserem a valsa, a seresta, e o samba no generoso ambiente do choro. “Notícia”, de Nelson Cavaquinho, Nourival Bahia e Alcides Caminha (identidade do desenhista Carlos Zéfiro, parceiro de Nelson neste e em outros sambas), dialoga com o jazz e o impressionismo, citando “O mar”, de Dorival Caymmi, a exemplo do que fez Paulo Moura em sua versão para a mesma música, nos anos setenta. Ainda no universo do samba, a dupla registra o clássico “Acontece”, de Cartola, antecipando as comemorações do centenário do mestre, em 2008; e “Choro negro”, uma das muitas incursões de Paulinho da Viola no terreno da música instrumental. “Di Menor”, de Guinga e Celso Viáfora, é interpretada com a virtude primordial dos grandes músicos: percorrer com simplicidade e sentimento os mais intrincados caminhos harmônicos e melódicos propostos no tema. Já “Baião malandro” preserva a grandiloqüência da composição de Egberto Gismonti, onde Holanda e Mehmari soam como uma orquestra em duo. Há ainda uma versão para “Love theme”, do italiano Andrea Morricone, tema do filme “Cinema Paradiso”, além de composições de Hamilton (“Enchendo o latão” e “O sonho”, esta lançada anteriormente pelo bandolinista) e André (“Vivo entre valsas”, “Choro da contínua amizade”). As três faixas bônus apresentam versões diferentes para “Choro negro”, “Notícia” e a faixa-título, registradas no primeiro ensaio da dupla, que produziu e gravou o álbum em dois dias, no estúdio Monteverdi, na casa de André Mehmari na bucólica Serra da Cantareira, em São Paulo. Entre o choro, o samba, o baião e a valsa, ecoa a frase emblemática com que Hamilton costuma definir sua música: moderno é tradição. Esta renova-se de maneira contínua, como a amizade.
Julio Moura - Deck Discos
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