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Proj. Memória 107


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Informações
Cancioneiro de Canudos
Pingo de Fortaleza

Título Cancioneiro de Canudos
Ano Gravação 1986
Ano Lançamento 2000
Selo Memória 107
Preço (R$) R$ 15,00
Resumo

Segundo volume do Projeto Memória 107, que estreou com o CD Reflexões Nordestinas do violonista cearense Nonato Luiz, o álbum Cancioneiro de Canudos reúne a obra de Pingo de Fortaleza com temática para a realidade de Antônio Conselheiro. O disco traz o então LP lançado em 1986 acrescido de sete faixas dos outros trabalhos de Pingo de Fortaleza e a inédita "Outros 500" composta para o enredo do ano 2000 do Maracatu Áz de Ouro, sucesso absoluto do carnaval cearense desse ano.

São 74 minutos de puro deleite da armosfera musical que sempre é interpretada pelos participantes do evento pelos mártires de Canudos, promovido todos os anos no início do mês de outubro no local onde era a cidade idealizada por Antônio Conselheiro.

Ficha Técnica

1“ CENTAUROS E CANUDOS
(Pingo de Fortaleza/Guaracy Rodrigues)

Na terra ficou um risco
De talhe, foice, cangaço.
Corisco ficou arisco,
A história apressou o passo,
Quando o povo ergueu Canudos
Com a força que tem o braço.
Algo de novo nascia
Pelo canto dos espaços,
Centauros do apocalipse
No mundo houve um eclipse,
Mas logo se alumiou,
Quando surgiu Antônio Conselheiro
Com fogo pelo sertão inteiro,
Com chumbo grosso nas armas
E a promessa de libertar os brasileiros.
Veredas desse sertão,
Onde o povo luta e farreia,
Nas águas do araguaias,
Canudos é lua cheia.

“Ó meu Antoi Conselheiro,
Que mora no pé da serra,
Olha o som da corneta
E olha a pancada da caixa de guerra.
A estrela d’Alva é bonita,
Quando vem rompendo a aurora,
Os passarim ficam tristes, ai, ai,
E as aves num canto choram.”
(trecho de domínio popular
coletado por Rosemberg Carirí
e adptado por Pingo de Fortaleza)

VOZ – Pingo de Fortaleza
VIOLÃO – Tarcísio Lima
PERCUSSÃO – Louro do Zabumba
QUARTETO DE CORDAS
João Daltro (violino I e II)
Hindenburgo Pereira (viola)
Jaques Morelembaum (cello)
ARRANJO DE CORDAS – Tarcísio José de Lima
ARRANJO DE BASE – Pingo de Fortaleza



2 – MARTELO
(Pingo de Fortaleza/Oswald Barroso)

Cada abalo que eu der nesta viola
É disparo no chão que a terra treme,
Pois aos pés da riqueza o povo geme,
Da moeda o valor ninguém controla,
No repente do tempo a vida rola,
Desgarrada e veloz enfurecida
Feito raio de força desmedida
Frente ao qual já se atrasa o pensamento,
E o eterno não passa de um momento
Que a tormenta arrastou por distraída.

Entre o medo e a morte em retirada,
Multidões se debatem sem saída,
Disputando na bala a subvida,
O sobejo salobro na calçada.
Meu ponteio acelero em disparada,
Da peleja do desfecho descortino,
Da boiada o estouro repentino
Sob a luz do trovão que relampeia,
Arrancando o mourão, revira a peia
E descamba no mundo sem destino.

Na canção, o coração, a consciência;
No improviso, o instinto instantâneo;
No martelo, o galope momentâneo,
Procurando no povo a providência
E a certeza no campo da ciência
Prá cantar o combate conterrâneo
Sucesso, sofrido, sucedâneo
Que se abate em todo à capital,
Na comédia do drama universal,
A tragédia do meu contemporâneo.

VOZ – Pingo de Fortaleza
VIOLÃO – Tarcísio Lima
FLAUTA – Celso Woltzernlogel
VIOLINO – João Daltro
VIOLA – Hindenburgo Pereira
BAIXO ACÚSTICO – Ricardo Cândido
PERCUSSÃO – Louro do Zabumba
ARRANJO – Tarcísio José de Lima


3 – VEREDAS E SERTÕES
(Pingo de Fortaleza/Guaracy Rodrigues/Dedé)

Nas verdades dessa terra
Corre um sopro arrastado
Dessas brisas dos sertões,
Onde o mar não tem razões
Nem o boi tem mais seu berro.

Quando a vida é um desterro,
Há um canto feito ferro,
Um destino feito pedra
No suor dos mutirões
Prá lá de Monte Santo.

A palavra tem canhões,
Os moinhos os seus ventos,
A história a sua dança,
As perdizes o seu tempo,
Os doze pares de França.

Sei que cego tem memória,
Quando começa uma história
Que tem começo e não tem fim,
Quando a força se arvora
Nas bandeiras da vitória,
Nas terras dos confins.

VOZ E VIOLÃO – Pingo de Fortaleza
CELLO – Jaques Morelembaum
ARRANJO DE CELLO – Lindenberg Cardoso
ARRANJO DE BASE – Pingo de Fortaleza


4 – BALAIO
(Pingo de Fortaleza/Leite Júnior)

Quem quer balaio
Tenho dos melhores
O meu balaio pega até Saci,
O meu balaio pega até Saci. (trecho)
(bis)

VOZ – Pingo de Fortaleza
PERCUSSÃO – Louro do Zabumba
ARRANJO – Pingo de Fortaleza


5 – COCO GUERREIRO
(Pingo de Fortaleza/Rosemberg Carirí)

Na Cabanada
Aprendi a quebrar coco,
Vi bacurau da miséria
Cantado dentro do oco
A revolta popular.

Na Balaiada
Lutei contra o imperador,
Contra os donos desta terra,
Tirano e explorador,
Fiz seu chicote voltar.

Ói, olha o milho, morena,
Que o milho vai pendoar,
Pega teu rifle, morena, refrão
Morena, nós vamos brigar (bis)

Em Quebra-Quilo
Quebrei balança e cadeira,
Quebrei corrente de escravo,
Pulei cerca e até porteira,
A história não vai negar.

Não conformado,
Incendiei todo o sertão,
Gritei : Morra esse governo,
Que eu não pago imposto ao cão
E nem vou me alistar.
(refrão)
bis

Mas em Canudos
Vi o bem tão coletivo,
Matei macaco de tapa,
Disse que eu não sou cativo,
Quero terra pra plantar.

No Caldeirão
Fui livre como um anum,
O que todos produziam
Pertencia a cada um
E por isso eu vou cantar.
(refrão)
bis

VOZ – Pingo de Fortaleza
VIOLÃO – Tarcísio Lima
FLAUTA I E II – Celso Woltzernlogel
BAIXO ACÚSTICO – Paulo Russo
PERCUSSÃO – Louro do Zabumba
ARRANJO – Carlinhos Ferreira
ARRANJO DE BASE – Pingo de Fortaleza


6 – QUE ESPETÁCULO É ESTE ?
(Pingo de Fortaleza/Diogo Fontenele)

São mágicas as ruas da nossa cidade.
Quando a noite desce viram lençóis,
Quando a noite sobe são camas de faquir.
São misteriosos os artistas das ruas:
Ora são crianças vestidas de fera,
Ora são feras vestidas de criança.
Porém o mais estranho é que ainda não entendi.
Que espetáculo é este ?
Que espetáculo é este ?
Que espetáculo é este ?

VOZ – Pingo de Fortaleza
VIOLÃO – Maria Jesus Haro
CLARINETA – Paulo dos Passos
ARRANJO – Tarcísio José de Lima

7 – CENTAURO GUERREIRO
(Pingo de Fortaleza/Eurico Bivar)

RECITATIVO
“Nós temos cinco governos,
O primeiro, o federal,
O segundo, o do estado
O terceiro, o municipal
O quarto, a palmatória
E o quinto, o velho punhal.”
(Leandro Gomes de Barros)

Certo Antônio Aparecido
Bom Jesus, meu Conselheiro,
Mais amado dos jagunços,
Pai-de-fé, varão guerreiro.

Vei’de Quixeramobim,
Teve fim,
Tal fim de Buda.
Em Canudos, arraial,
Deu a quem, pediu ajuda.
Por desgosto ignorado,
Do sertão autodeposto,
Foi pregar moral severa,
Deu lição de vida e gosto.
Nas águas d’um rio claro,
Um tal de Vaza-Barris,
Conselheiro, em seu poder,
Foi fazer guerras civis...
E virou Centauro, arauto guerreiro,
Um velho e novo herói brasileiro,
Na força, palavra, fé e fuzil.
E foi guerrear nos terreiros,
Sertões, veredas, celeiros,
Montou, negou, ser servil,
Montou, negou, ser servil,
Montou, negou, negar...

VOZ E VIOLÃO – Pingo de Fortaleza
VIOLA – Hindenburgo Pereira
PERCUSSÃO – Louro do Zabumba
EFEITOS – Louro do Zambumba e Pingo de Fortaleza
ARRANJO DE VIOLA – Tarcísio José de Lima
ARRANJO DE BASE – Pingo de Fortaleza


8 – CANTORIA TORTA
(Pingo de Fortaleza/Guaracy Rodrgiues)

Nessa mata adentro
Corre um boi sem direção. (bis)
Nessa mata adentro,
Acorda, Caipora, tá na hora.
Jaraguá sabe do ouro.
Se contar, leva no couro
E vai ver assombração.

Ê, ê, meu Boi-Bumbá !
Ê, ê, meu Boi-Tungão !

Dentro desse boi
Brinca um menino e uma mulher. (bis)
Dentro desse boi
Cana de cabeça tem avesso,
Tem um fim sem Ter começo,
Uma sorte sem Ter preço,
Tem Corisco e Lampião.

Ê, ê, meu Boi-Bumbá !
Ê, ê, meu Boi-Coração!


Mas por essa estrada
Passa a luz da escuridão. (bis)
Mas por essa estrada
Quem seguir no passo
Sem cangaço
Faz gemer a fera e o aço,
Muda a vida sem cansaço
Torce o rumo dos que vão.

Ê, ê, meu Boi-Bumbá !
Ê, ê, meu Boi-Tungão !

No final da história
Tem burrinha e gavião. (bis)
No final da história
Faz uma careta
E vai deixando de marmota,
Que essa cantoria é torta,
Não tem rima e nem refrão.

Ê, ê, meu Boi-Bumbá !
Ê, ê, meu Boi-Pindaré !

VOZ – Pingo de Fortaleza
VIOLÃO – Tarcísio Lima
FLAUTA – Celso Woltzernlogel
VIOLA – Hindenburgo Pereira
BAIXO ACÚSTICO – Ricardo Cândido
PERCUSSÃO – Louro do Zabumba
ARRANJO – Tarcísio José de Lima


9 – INCELENÇA PARA OS MORTOS
(Pingo de Fortaleza/Guaracy Rodrigues)

EXPOSIÇÃO
Papa destino fecha paletó,
Medo de menino nascido no cafundó,
Aboiando a escuridão, outros bois e outros mundos,
Ele lê na minha mão começo e fim de tudo.

NARRAÇÃO
Fabiano tinha terra nos seus olhos,
Nas unhas o pelo do novilho desmamado,
Ali caído sem seu berro, sem mugido,
Todo seco feito um estalido,
Um graveto de pau-roxo endurecido.
Sol, vento, terra
Povoa agora esse lugar,
Diz-se que no espinho do cativeiro
O homem é servo,
É carniça sem Ter cheiro
E seu destino é trabalhar.

DESFECHO
Mas, bicho caatingueiro, ele volta,
Volta qualquer dia, qualquer janeiro,
Anunciando a pregação, vem buscar seu alazão,
Armado da vontade de guerreiro
Ou mesmo de um arcanjo desgarrado do Pai Eterno,
Vem dizendo a todos que o rei das terras
Só será dono do inferno.

VOZ E VIOLÃO – Pingo de Fortaleza
FLAUTA – Celso Woltzernolgel
VIOLINO – João Daltro
VIOLA – Hindenburgo Pereira
BAIXO ACÚSTICO – Paulo Russo
PIANO E ACORDEON – Marquinhos
PERCUSSÃO – Louro do Zambumba
CORO – Grupo Vocal Caracoro
ARRANJO INSTRUMENTAL – Elba Braga Ramalho
ARRANJO DE VOZES – Rapegá Fermanian
ARRANJO DE BASE – Pingo de Fortaleza
GRUPO VOCAL CARACORO
Regente – Fernando Ariani
Sopranos – Ana Odete Beck, Cristina Araújo e Gilda Campos
Contraltos – Glória Calvente e Adriana Matriciano
Tenores – André Borem, Ernani Gouveia e Ismael Pontes
Baixos – Alberto Hersh, Marco Paulo Costa, Luiz Eduardo Mattos e Pedro Lima.


10 - MEIA QUADRA II
(Pingo de Fortaleza/Oswald Barroso)

Quando eu disser vida e meia,
Você leia meia vida;
Você leia lida e meia,
Se eu disser que é meia lida;
Se eu disser que é prato e meio,
Você leia meu patrão;
Você leia meio prato,
Se eu disser meia prisão;
Leia meia parte e peia,
Se eu disser que é precisão.

Quando eu disser paga e meia,
Você leia meia paga;
Você leia praga e meia,
Se eu disser que é meia praga;
Se eu disser serviço e meio,
Você leia servidão;
Se eu disser que a vida é feia,
Você leia sujeição;
Se essas terras algo dão
Apanha a dor na carreira.

Que a vida é ave ligeira,
Quanto mais partida em meia.

VOZ E VIOLÃO – Pingo de Fortaleza
FLAUTA – Celso Wolternlogel
VIOLINO – João Daltro
VIOLA – Hindenburgo Pereira
VIOLA DE DOZE – Paulo Steinberg
BAIXO ACÚSTICO – Ricardo Cândido
PERCUSSÃO – Louro do Zabumba
ARRANJO – Tarcísio José de Lima
ARRANJO DE BASE – Pingo de Fortaleza


11 – FORRÓ DO TEMPERO
(Pingo de Fortaleza/Guaracy Rodrigues)

Eu sou teu baião de dois,
Eu sou que nem mugunzá,
Paçoca, pão de cuscuz,
Pimenta pra te esquentar.

Teu corpo é que nem caldeira,
Que serve pra cozinhar,
Me pega pro teu tempero
E vem me saborear.

Eu sou teu prato feito, morena,
Sou que nem jiló, Refrão
Vem dançar comigo, morena, Bis
Senão eu danço só.

Teu beijo é tição, quentura,
Saudade é o meu manjar,
Paixão a gente mistura
Nas águas de um aluá.

No fole do teu abraço,
Me entrego sem resistir,
Pro’cê quero ser bagaço,
Ter gosto de um bom piqui.
Refrão

Na hora em que o povo todo.
Vier pra banquetear,
Fartura, forró e festa,
Fartura, forró e festa,
Fartura, forró e festa,
Fartura, forró e festa
Pro povo não vai faltar,
Se o fogo não se apagar.

VOZ – Pingo de Fortaleza
ACORDEON – Marquinhos
VIOLINO I e II – João Daltro
CLARINETA – Paulo dos Passos
BAIXO ACÚSTICO – Paulo Russo
PERCUSSÃO – Louro do Zabumba
ARRANJO – Leonardo Leonel (Léo)
ARRANJO DE BASE – Pingo de Fortaleza


12 – ACALANTO
(Pingo de Fortaleza/Oswald Barroso)

Não, irmão,
Eu não posso te prometer
Uma aurora para amanhã,
Talvez depois de amanhã
Ou mesmo depois de depois,
Quando se aplaque o temporal.

Não, irmão
Eu não posso te dizer
Que é só um minuto ou mesmo um dia,
Embora eu o quisesse tanto,
Porque mais vale a realidade
Do que a frase vazia.

Sei que é difícil,
Muito difícil, irmão.

Mas pense num dia claro
Como uma coisa concreta,
Muito viva e colorida,
E veja neste lume que abrigas no peito
O ante-sol dessa alvorada.

VOZ – Pingo de Fortaleza
VOZ E VIOLÃO – Tarcísio Lima
ARRANJO DE VOZ – Tarcísio Lima


FICHA TÉCNICA

PRODUÇÃO – Pingo de Fortaleza
IDEALIZAÇÃO E DIREÇÃO ARTÍSTICA – Pingo de Fortaleza
DIREÇÃO MUSICAL E DE ESTÚDIO – Tarcísio José de Lima
GRAVADO NO ESTÚDIO SONOVISO (8 CANAIS) RIO DE JANEIRO – JULHO DE 1986
TÉCNICOS DE GRAVAÇÃO – Toninho Barbosa e Antônio Vicente
TÉCNICO DE MIXAGEM – Toninho Barbosa
MONTAGEM – Antônio Vicente
DESENHO DA CAPA – Eurico Bivar
FOTO DA CONTRA-CAPA – Wolney Oliveira
FOTOS DO ENCARTE – Arquivo Particular de: Eusélio Oliveira, Firmino Holanda e Rosenberg Carirí
TEXTO DE APRESENTAÇÃO – Nelson Augusto
TEXTO DO ENCARTE – Firmino Holanda
PROGRAMAÇÃO VISUAL DA CAPA E ENCARTE – Falcão
IMPRESSÃO – IMPRENSA UNIVERSITÁRIA - UFC


FAIXAS BÔNUS

13 – 3ª MISSA PELOS MÁRTIRES DE CANUDOS
(Pingo de Fortaleza)






VOZ E VIOLÃO – Pingo de Fortaleza
VIOLÃO E ARRANJO – Gereba
ÓRGÃO ELÉTRICO – Rafael Piragine
SINOS – Pingo de Fortaleza e Dinho Nascimento
GRAVAÇÃO – São Paulo em 1987 no LP LENDAS E CONTENDAS
Composta após o artista participar da 3ª Missa pelos Mártires de Canudos na Bahia em 1986


14 – BELO MONTE – INSTRUMENTAL
(Pingo de Fortaleza)

VIOLÃO I – Pingo de Fortaleza
VIOLÃO II E ARRANJO – Marcos Maia
GRAVAÇÃO – Estúdio Olho D’água, Fortaleza em 2000 no CD INSTRUMENTAL


15 – LADAINHA PRA CANUDOS
(Gereba/João Bá)

Usaram as águas do rio
Que nem as armas do medonho
Pra destruir, a morada Terra Santa
Do beato Santo Antônio

Penitentes e contritos
Na sagrada procissão
Pra bandeira de Canudos
Nunciar ressurreição

VOZ E VIOLÃO – Pingo de Fortaleza
PERCUSSÕES – Descartes Gadelha e Nilton Fiore
GRAVAÇÃO – Theatro José de Alencar , Fortaleza em 1993 no CD AO VIVO
Uma alusão ao açude Cocorobó, construído em meados de 1970, o qual inundou a Terra Santa de Canudos, numa tentativa de afogar a memória do lugar.


16 – A HISTÓRIA FARÁ SUA HOMENAGEM À FIGURA DE ANTÔNIO CONSELHEIRO
(Ivanildo Vilanova)

Num profundo deserto sem Ter fonte
Já surgiu um regime igualitário
Onde um justo já sexagenário
Fez erguer-se a cidade Belo Monte
Para então deslumbrar o horizonte
Sem maldade, sem crime e sem dinheiro
Sem bordel, sem fiscal, sem carcereiro
Mas foi morto e tomado por selvagem
A figura fará sua homenagem
À figura de Antônio Conselheiro

Quem viveu ao seu lado sempre quis
Ter real o que era fantasia
O reinado no céu não prometia
Sim um reino na terra mais feliz
Afinal só o povo do país
Pode dar o retrato verdadeiro
Deste líder autêntico e mensageiro
Que alguém deformou sua imagem
A história fará sua homenagem
À figura de Antônio Conselheiro

Masseté, Uauá, Paraguassú
Caatinga, Facheiro, Mororó
Cambaio, Caipan, Cocorobó
Monte Santo, Favela e Trabubu
Beatinho, Abade e Pajeú
Vilanova, Brandão e Fogueteiro
Macambira, Lalau e o sineiro
Timóteo, lendário personagem
A história fará sua homenagem
À figura de Antônio Conselheiro

Oh! Canudos país da promissão
Foi injusta e cruel a tua guerra
Tu que eras abrigo dos sem terra
Sem direito, justiça, paz e pão
O jagunço era apenas o irmão
O fanático somente o companheiro
Junto ao mestre encontrado o paradeiro
Confiança, família e hospedagem
A história fará sua homenagem
À figura de Antônio Conselheiro

Só o Vaza Barrís tão solitário
Vive lá como símbolo e uma prova
De Canudos igreja velha e nova
Linha negra, trincheira e santuário
Malassombro de latifundiário
Coronel, poderoso e fazendeiro
Houve mesmo esse reino alvissareiro
Ao qual muitos tomaram por miragem
A história fará sua homenagem
À figura de Antônio Conselheiro

Sertanejos morrendo de magote
A bandeira rasgada era um molambo
O quartel tem guarita era um mucambo
A trincheira era a grimpa de um serrote
A metralha um feioso clavinote
Baioneta era a lança do carreiro
A corneta o búzio do vaqueiro
Parapeito e gibão sua roupagem
A história fará sua homenagem
À figura de Antônio Conselheiro

Quase dez mil soldados de elite
Quatro bons generais lhes dando apoio
Bivarque, arsenal, bóia e comboio
Com dezoito canhões e dinamite
Numa guerra civil sem Ter limite
Não um simples conflito passageiro
Brasileiro matando brasileiro
Os vencidos mostrando mais linhagem
A história fará sua homenagem
À figura de Antônio Conselheiro

Foi a luta da foice e do fuzil
O facão enfrentando a artilharia
Uma nódoa na honra da Bahia
Uma mancha no nome do Brasil
Mas talvez que no ano de 2000
Esse nosso Nordeste brasileiro
Seja outra Canudos por inteiro
Com mais gente, mais arma (mais arte) e mais coragem
A história fará sua homenagem
À figura de Antônio Conselheiro.

VOZ E VIOLÃO – Pingo de Fortaleza
PERCUSSÕES – Descartes Gadelha e Nilton Fiore
GRAVAÇÃO – Theatro José de Alencar, Fortaleza em 1993 no CD AO VIVO
O poeta Ivanildo Vilanova, como ninguém, conseguiu com beleza e força sintetizar nesses versos a História da Comunidade Igualitária de Canudos (Bahia – 1892 a 1897).


17 – DE QUIXERAMOBIM A CANUDOS – INSTRUMENTAL
(Pingo de Fortaleza)

VIOLÃO I – Pingo de Fortaleza
VIOLÃO II – Manassés de Souza
VIOLÃO III – Marcos Maia
VIOLÃO IV – Nonato Luiz
GRAVAÇÃO – Estúdio Olho D’água, Fortaleza em 2000 no CD INSTRUMENTAL
Inspirada em três momentos da vida de Antônio Conselheiro: sua árdua peregrinação pelos sertões nordestinos, a harmonia e a beleza da comunidade de Canudos, e por fim, a guerra e a destruição do arraial conselheirista.


18 – CANUDOS
(Marinho Júnior)

Sertão morreu
No fim de tarde
Um breve passarinho
Seguiu viagem
Pairou nos campos
Nas cidades
Provou a vida, a fruta
Liberdade
Não tarde demais
Canudos
Não tarde demais
Canudos
O céu ferido chora
A mágoa da tarde
A noite esconde o rosto
Da verdade
Contos mal contados
Da história
Um manto enegrecido
Na memória
Minha avó não lembra
De Canudos
Minha mãe nem sabe
De Canudos
Homens, corações de pedra
Velhos, crianças na guerra
Página virada dos sertões

VOZ E VIOLÃO – Pingo de Fortaleza
BAIXO – Jerônimo Neto
EFEITOS – Hoto Júnior
ARRANJO DE BASE – Marinho Júnior
VIOLÃO DE AÇO, TECLADOS, ARRANJO E REGÊNCIA – Tony Maranhão
GRAVAÇÃO – Pró Áudio Estúdio, Fortaleza em 1996 no CD CANTARES



19 – OUTROS 500
(Pingo de Fortaleza)

VOZ – Pingo de Fortaleza
PERCUSSÃO E CORO – Batuque do Maracatu Áz de Ouro
GRAVAÇÃO – Pró Áudio Estúdio, Fortaleza em maio de 2000. Música inédita
Composta para o enredo do ano 2000 do cearense Maracatu Àz de Ouro


20 – CENTAUROS E CANUDOS
(Pingo de Fortaleza/Guaracy Rodrigues)

Na terra ficou um risco
De talhe, foice, cangaço.
Corisco ficou arisco,
A história apressou o passo,
Quando o povo ergueu Canudos
Com a força que tem o braço.
Algo de novo nascia
Pelo canto dos espaços,
Centauros do apocalipse
No mundo houve um eclipse,
Mas logo se alumiou,
Quando surgiu Antônio Conselheiro
Com fogo pelo sertão inteiro,
Com chumbo grosso nas armas
E a promessa de libertar os brasileiros.
Veredas desse sertão,
Onde o povo luta e farreia,
Nas águas do araguaias,
Canudos é lua cheia.

“Ó meu Antoi Conselheiro,
Que mora no pé da serra,
Olha o som da corneta
E olha a pancada da caixa de guerra.
A estrela d’Alva é bonita,
Quando vem rompendo a aurora,
Os passarim ficam tristes, ai, ai,
E as aves num canto choram.”
(trecho de domínio popular
coletado por Rosemberg Carirí
e adptado por Pingo de Fortaleza)

VOZ E VIOLÃO – Pingo de Fortaleza
PERCUSSÕES – Descartes Gadelha e Nilton Fiore
GRAVAÇÃO – Theatro José de Alencar, Fortaleza em 1993 no CD AO VIVO

Observações

Texto do Encarte do elepê Centauros e Canudos

Palavras e sons traduzem aqui, nestes doze cantos de Pingo de Fortaleza, as imagens que a nossa memória guarda. A harmonia das cordas feridas veste o corpo dos poemas que, em contraste, falam das desigualdades sociais e das pelejas dos homens para consertar este mundo mal dividido.
O cenário é o nordeste. A terra. Do sertão ao litoral.
O mote é Canudos, símbolo de resistência popular, a partir do qual lutas e lidas d’outros tempos – o ontem, hoje e amanhã – são evocadas.
Se o sonho Conselheirista hoje se cobre com as águas do açude Cocorobó, é de lá que ainda vêm sinais, toques e luzes neste repensar musical. Nada é mais vivo que a história. Quem tentar apagá-la há de se queimar. E quando dela se armam poetas e cantadores, as palavras têm canhões.
Antônio Vicente Mendes Maciel / Quixeramobim / Ceará / 1828 – 1897 / Bahia / Comunidade do Belo Monte / Antônio Conselheiro.
Foi professor primário, caixeiro, rábula, vendedor. Depois, inspirado na necessidade de bem servir os “mal aventurados” do sertão, como dizia, palmilhou todo o Nordeste, pregando a boa palavra, erguendo capelas. Mas sua religiosidade era outra, popular. Perseguido pelos donos das leis e de tudo, instalou-se com sua gente na velha fazenda Canudos, à margem do Vaza-Barrris. 1893.
Como no Caldeirão – posteriormente também destruído pelo estado, sob as bençãos da ortodoxia católica – em Belo Monte a propriedade era coletiva.
Enquanto a promessa Messiânica não se cumpria, trazendo um novo mundo com rios de leite e montes de cuscuz, o povo dali, livre da servidão semifeudal, trabalhava pelo bem comum. O paraíso se realizava aqui na Terra, já. E nas festas religiosas brincavam camponeses, ex-escravos, vaqueiros, artesãos, mulheres, crianças e guerreiros. Todos defenderiam a cidadela, quando o governo republicano, que não alterara a estrutura agrária do sertão resolveu extirpar a subversiva comunidade, que se rebelava contra a “Lei do Cão” e seus impostos. Tudo na mesma, assim como nos tempos da monarquia, quando, o povo se insurgiu em revoltas como a Balaiada, Cabanada ou Quebra-Quilo.
O governo sustentou quatro expedições militares, de 1896 a 1897, contra os canudenses. Contra o ribombar apocalíptico dos canhões Krupp, lutavam guerrilheiros que eram amigos das pedras, matas, veredas, capoeiras. Gastando pouca munição, dormindo na mira, cuspindo chumbo e se benzendo depois. Dentro de uma carcaça bovina, espiões estudavam o movimento das tropas inimigas. Era a extensão da fortaleza labiríntica de palha e barro, que foi defendida palmo a palmo quando cinco mil soldados, “rugindo raivosamente”, invadiram-na. No final, Conselheiro estava morto e, encarando o exército, restavam apenas três homens e uma criança. Canudos não se rendeu.
Com o brilho da luz própria, Lampião e o Diabo Louro Corisco não se renderam. Riscando caatingas com o fogo de fuzil e ponta de punhal, fustigaram a macacada corrupta.
Corisco, Dadá, Lampião, Antônio Calixto, os Macambiras, Jararaca, Azulão, Antônio Silvino, Coiom, Quinquim, José Lourenço, Isaías, Severino Tavares, Joaquim Tranca-Pés, Pedrão, Siriema, Antônio Fogueteiro, João Carga D Água, Neco de Barros, Francisco Totó, Viveiros, José Bispo, Maria Rita, Santinha, Chico Ema, Bernebé, Joaquim Norberto...
Oxossi, santo-guerreiro, contra a Besta-Fera da miséria organizada em séculos de latifúndio; amanhã, com sua lança vazando olhos de leões colonialistas; soltando esse Boi Coração / Bumbá / Tungão Pindaré, que ninguém pega. É o povo. Dentro do bicho brincam mulher, menino ou homem que espia a fraqueza do governo. E o animal, em carreira por caatingas, se corta, se fura, perde a cabeça, mas renasce. Zabumbando no peito o mesmo toque que tempera canções neste “Centauros e Canudos”.
“A mim me interessa o povo, há três séculos capado e recapado, sangrando e ressangrando”, já dizia Casimiro de Abreu.
Nesta cidade litorânea, estamos de costas para o mar de amanhã – o sertão que “virará praia”. Os rebanhos correm do campo à Capital e povoam calçadas e favelas. Aqui, misteriosos artistas de rua viram feras. Que espetáculo é este ? Que espetáculo é este ?
A profecia de Conselheiro ainda não se cumpriu. A palmatória, a mentira, a dominação, a exploração do homem pelo homem podem até mudar de nome, mas tudo continua na cantiga da perua. “Se eu disser que a vida é feia, você leia sujeição”. Enquanto as víboras estiverem vivas, não se atingirá o sonho de fortuna e festa em terras de São Saruê.
Num galope à beira-mar, as ondas batem na praia. Do sertão vêm outras vagas, trazendo o mormaço dos caldeirões a ferver. “Centauros e Canudos” nos fala disso tudo. Pingo de Fortaleza com sua viola, dispara a música sempre viva, necessária e atual.
Firmino Holanda.

 

 

 

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