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1“ CENTAUROS E CANUDOS (Pingo de Fortaleza/Guaracy Rodrigues)
Na terra ficou um risco De talhe, foice, cangaço. Corisco ficou arisco, A história apressou o passo, Quando o povo ergueu Canudos Com a força que tem o braço. Algo de novo nascia Pelo canto dos espaços, Centauros do apocalipse No mundo houve um eclipse, Mas logo se alumiou, Quando surgiu Antônio Conselheiro Com fogo pelo sertão inteiro, Com chumbo grosso nas armas E a promessa de libertar os brasileiros. Veredas desse sertão, Onde o povo luta e farreia, Nas águas do araguaias, Canudos é lua cheia.
“Ó meu Antoi Conselheiro, Que mora no pé da serra, Olha o som da corneta E olha a pancada da caixa de guerra. A estrela d’Alva é bonita, Quando vem rompendo a aurora, Os passarim ficam tristes, ai, ai, E as aves num canto choram.” (trecho de domínio popular coletado por Rosemberg Carirí e adptado por Pingo de Fortaleza)
VOZ – Pingo de Fortaleza VIOLÃO – Tarcísio Lima PERCUSSÃO – Louro do Zabumba QUARTETO DE CORDAS João Daltro (violino I e II) Hindenburgo Pereira (viola) Jaques Morelembaum (cello) ARRANJO DE CORDAS – Tarcísio José de Lima ARRANJO DE BASE – Pingo de Fortaleza
2 – MARTELO (Pingo de Fortaleza/Oswald Barroso)
Cada abalo que eu der nesta viola É disparo no chão que a terra treme, Pois aos pés da riqueza o povo geme, Da moeda o valor ninguém controla, No repente do tempo a vida rola, Desgarrada e veloz enfurecida Feito raio de força desmedida Frente ao qual já se atrasa o pensamento, E o eterno não passa de um momento Que a tormenta arrastou por distraída.
Entre o medo e a morte em retirada, Multidões se debatem sem saída, Disputando na bala a subvida, O sobejo salobro na calçada. Meu ponteio acelero em disparada, Da peleja do desfecho descortino, Da boiada o estouro repentino Sob a luz do trovão que relampeia, Arrancando o mourão, revira a peia E descamba no mundo sem destino.
Na canção, o coração, a consciência; No improviso, o instinto instantâneo; No martelo, o galope momentâneo, Procurando no povo a providência E a certeza no campo da ciência Prá cantar o combate conterrâneo Sucesso, sofrido, sucedâneo Que se abate em todo à capital, Na comédia do drama universal, A tragédia do meu contemporâneo.
VOZ – Pingo de Fortaleza VIOLÃO – Tarcísio Lima FLAUTA – Celso Woltzernlogel VIOLINO – João Daltro VIOLA – Hindenburgo Pereira BAIXO ACÚSTICO – Ricardo Cândido PERCUSSÃO – Louro do Zabumba ARRANJO – Tarcísio José de Lima
3 – VEREDAS E SERTÕES (Pingo de Fortaleza/Guaracy Rodrigues/Dedé)
Nas verdades dessa terra Corre um sopro arrastado Dessas brisas dos sertões, Onde o mar não tem razões Nem o boi tem mais seu berro.
Quando a vida é um desterro, Há um canto feito ferro, Um destino feito pedra No suor dos mutirões Prá lá de Monte Santo.
A palavra tem canhões, Os moinhos os seus ventos, A história a sua dança, As perdizes o seu tempo, Os doze pares de França.
Sei que cego tem memória, Quando começa uma história Que tem começo e não tem fim, Quando a força se arvora Nas bandeiras da vitória, Nas terras dos confins.
VOZ E VIOLÃO – Pingo de Fortaleza CELLO – Jaques Morelembaum ARRANJO DE CELLO – Lindenberg Cardoso ARRANJO DE BASE – Pingo de Fortaleza
4 – BALAIO (Pingo de Fortaleza/Leite Júnior) Quem quer balaio Tenho dos melhores O meu balaio pega até Saci, O meu balaio pega até Saci. (trecho) (bis)
VOZ – Pingo de Fortaleza PERCUSSÃO – Louro do Zabumba ARRANJO – Pingo de Fortaleza
5 – COCO GUERREIRO (Pingo de Fortaleza/Rosemberg Carirí)
Na Cabanada Aprendi a quebrar coco, Vi bacurau da miséria Cantado dentro do oco A revolta popular.
Na Balaiada Lutei contra o imperador, Contra os donos desta terra, Tirano e explorador, Fiz seu chicote voltar.
Ói, olha o milho, morena, Que o milho vai pendoar, Pega teu rifle, morena, refrão Morena, nós vamos brigar (bis)
Em Quebra-Quilo Quebrei balança e cadeira, Quebrei corrente de escravo, Pulei cerca e até porteira, A história não vai negar.
Não conformado, Incendiei todo o sertão, Gritei : Morra esse governo, Que eu não pago imposto ao cão E nem vou me alistar. (refrão) bis
Mas em Canudos Vi o bem tão coletivo, Matei macaco de tapa, Disse que eu não sou cativo, Quero terra pra plantar.
No Caldeirão Fui livre como um anum, O que todos produziam Pertencia a cada um E por isso eu vou cantar. (refrão) bis
VOZ – Pingo de Fortaleza VIOLÃO – Tarcísio Lima FLAUTA I E II – Celso Woltzernlogel BAIXO ACÚSTICO – Paulo Russo PERCUSSÃO – Louro do Zabumba ARRANJO – Carlinhos Ferreira ARRANJO DE BASE – Pingo de Fortaleza
6 – QUE ESPETÁCULO É ESTE ? (Pingo de Fortaleza/Diogo Fontenele)
São mágicas as ruas da nossa cidade. Quando a noite desce viram lençóis, Quando a noite sobe são camas de faquir. São misteriosos os artistas das ruas: Ora são crianças vestidas de fera, Ora são feras vestidas de criança. Porém o mais estranho é que ainda não entendi. Que espetáculo é este ? Que espetáculo é este ? Que espetáculo é este ?
VOZ – Pingo de Fortaleza VIOLÃO – Maria Jesus Haro CLARINETA – Paulo dos Passos ARRANJO – Tarcísio José de Lima
7 – CENTAURO GUERREIRO (Pingo de Fortaleza/Eurico Bivar)
RECITATIVO “Nós temos cinco governos, O primeiro, o federal, O segundo, o do estado O terceiro, o municipal O quarto, a palmatória E o quinto, o velho punhal.” (Leandro Gomes de Barros)
Certo Antônio Aparecido Bom Jesus, meu Conselheiro, Mais amado dos jagunços, Pai-de-fé, varão guerreiro.
Vei’de Quixeramobim, Teve fim, Tal fim de Buda. Em Canudos, arraial, Deu a quem, pediu ajuda. Por desgosto ignorado, Do sertão autodeposto, Foi pregar moral severa, Deu lição de vida e gosto. Nas águas d’um rio claro, Um tal de Vaza-Barris, Conselheiro, em seu poder, Foi fazer guerras civis... E virou Centauro, arauto guerreiro, Um velho e novo herói brasileiro, Na força, palavra, fé e fuzil. E foi guerrear nos terreiros, Sertões, veredas, celeiros, Montou, negou, ser servil, Montou, negou, ser servil, Montou, negou, negar...
VOZ E VIOLÃO – Pingo de Fortaleza VIOLA – Hindenburgo Pereira PERCUSSÃO – Louro do Zabumba EFEITOS – Louro do Zambumba e Pingo de Fortaleza ARRANJO DE VIOLA – Tarcísio José de Lima ARRANJO DE BASE – Pingo de Fortaleza
8 – CANTORIA TORTA (Pingo de Fortaleza/Guaracy Rodrgiues) Nessa mata adentro Corre um boi sem direção. (bis) Nessa mata adentro, Acorda, Caipora, tá na hora. Jaraguá sabe do ouro. Se contar, leva no couro E vai ver assombração.
Ê, ê, meu Boi-Bumbá ! Ê, ê, meu Boi-Tungão !
Dentro desse boi Brinca um menino e uma mulher. (bis) Dentro desse boi Cana de cabeça tem avesso, Tem um fim sem Ter começo, Uma sorte sem Ter preço, Tem Corisco e Lampião.
Ê, ê, meu Boi-Bumbá ! Ê, ê, meu Boi-Coração!
Mas por essa estrada Passa a luz da escuridão. (bis) Mas por essa estrada Quem seguir no passo Sem cangaço Faz gemer a fera e o aço, Muda a vida sem cansaço Torce o rumo dos que vão.
Ê, ê, meu Boi-Bumbá ! Ê, ê, meu Boi-Tungão !
No final da história Tem burrinha e gavião. (bis) No final da história Faz uma careta E vai deixando de marmota, Que essa cantoria é torta, Não tem rima e nem refrão.
Ê, ê, meu Boi-Bumbá ! Ê, ê, meu Boi-Pindaré !
VOZ – Pingo de Fortaleza VIOLÃO – Tarcísio Lima FLAUTA – Celso Woltzernlogel VIOLA – Hindenburgo Pereira BAIXO ACÚSTICO – Ricardo Cândido PERCUSSÃO – Louro do Zabumba ARRANJO – Tarcísio José de Lima
9 – INCELENÇA PARA OS MORTOS (Pingo de Fortaleza/Guaracy Rodrigues)
EXPOSIÇÃO Papa destino fecha paletó, Medo de menino nascido no cafundó, Aboiando a escuridão, outros bois e outros mundos, Ele lê na minha mão começo e fim de tudo.
NARRAÇÃO Fabiano tinha terra nos seus olhos, Nas unhas o pelo do novilho desmamado, Ali caído sem seu berro, sem mugido, Todo seco feito um estalido, Um graveto de pau-roxo endurecido. Sol, vento, terra Povoa agora esse lugar, Diz-se que no espinho do cativeiro O homem é servo, É carniça sem Ter cheiro E seu destino é trabalhar.
DESFECHO Mas, bicho caatingueiro, ele volta, Volta qualquer dia, qualquer janeiro, Anunciando a pregação, vem buscar seu alazão, Armado da vontade de guerreiro Ou mesmo de um arcanjo desgarrado do Pai Eterno, Vem dizendo a todos que o rei das terras Só será dono do inferno.
VOZ E VIOLÃO – Pingo de Fortaleza FLAUTA – Celso Woltzernolgel VIOLINO – João Daltro VIOLA – Hindenburgo Pereira BAIXO ACÚSTICO – Paulo Russo PIANO E ACORDEON – Marquinhos PERCUSSÃO – Louro do Zambumba CORO – Grupo Vocal Caracoro ARRANJO INSTRUMENTAL – Elba Braga Ramalho ARRANJO DE VOZES – Rapegá Fermanian ARRANJO DE BASE – Pingo de Fortaleza GRUPO VOCAL CARACORO Regente – Fernando Ariani Sopranos – Ana Odete Beck, Cristina Araújo e Gilda Campos Contraltos – Glória Calvente e Adriana Matriciano Tenores – André Borem, Ernani Gouveia e Ismael Pontes Baixos – Alberto Hersh, Marco Paulo Costa, Luiz Eduardo Mattos e Pedro Lima.
10 - MEIA QUADRA II (Pingo de Fortaleza/Oswald Barroso)
Quando eu disser vida e meia, Você leia meia vida; Você leia lida e meia, Se eu disser que é meia lida; Se eu disser que é prato e meio, Você leia meu patrão; Você leia meio prato, Se eu disser meia prisão; Leia meia parte e peia, Se eu disser que é precisão.
Quando eu disser paga e meia, Você leia meia paga; Você leia praga e meia, Se eu disser que é meia praga; Se eu disser serviço e meio, Você leia servidão; Se eu disser que a vida é feia, Você leia sujeição; Se essas terras algo dão Apanha a dor na carreira.
Que a vida é ave ligeira, Quanto mais partida em meia.
VOZ E VIOLÃO – Pingo de Fortaleza FLAUTA – Celso Wolternlogel VIOLINO – João Daltro VIOLA – Hindenburgo Pereira VIOLA DE DOZE – Paulo Steinberg BAIXO ACÚSTICO – Ricardo Cândido PERCUSSÃO – Louro do Zabumba ARRANJO – Tarcísio José de Lima ARRANJO DE BASE – Pingo de Fortaleza
11 – FORRÓ DO TEMPERO (Pingo de Fortaleza/Guaracy Rodrigues)
Eu sou teu baião de dois, Eu sou que nem mugunzá, Paçoca, pão de cuscuz, Pimenta pra te esquentar.
Teu corpo é que nem caldeira, Que serve pra cozinhar, Me pega pro teu tempero E vem me saborear.
Eu sou teu prato feito, morena, Sou que nem jiló, Refrão Vem dançar comigo, morena, Bis Senão eu danço só.
Teu beijo é tição, quentura, Saudade é o meu manjar, Paixão a gente mistura Nas águas de um aluá.
No fole do teu abraço, Me entrego sem resistir, Pro’cê quero ser bagaço, Ter gosto de um bom piqui. Refrão
Na hora em que o povo todo. Vier pra banquetear, Fartura, forró e festa, Fartura, forró e festa, Fartura, forró e festa, Fartura, forró e festa Pro povo não vai faltar, Se o fogo não se apagar.
VOZ – Pingo de Fortaleza ACORDEON – Marquinhos VIOLINO I e II – João Daltro CLARINETA – Paulo dos Passos BAIXO ACÚSTICO – Paulo Russo PERCUSSÃO – Louro do Zabumba ARRANJO – Leonardo Leonel (Léo) ARRANJO DE BASE – Pingo de Fortaleza
12 – ACALANTO (Pingo de Fortaleza/Oswald Barroso)
Não, irmão, Eu não posso te prometer Uma aurora para amanhã, Talvez depois de amanhã Ou mesmo depois de depois, Quando se aplaque o temporal.
Não, irmão Eu não posso te dizer Que é só um minuto ou mesmo um dia, Embora eu o quisesse tanto, Porque mais vale a realidade Do que a frase vazia.
Sei que é difícil, Muito difícil, irmão.
Mas pense num dia claro Como uma coisa concreta, Muito viva e colorida, E veja neste lume que abrigas no peito O ante-sol dessa alvorada.
VOZ – Pingo de Fortaleza VOZ E VIOLÃO – Tarcísio Lima ARRANJO DE VOZ – Tarcísio Lima
FICHA TÉCNICA
PRODUÇÃO – Pingo de Fortaleza IDEALIZAÇÃO E DIREÇÃO ARTÍSTICA – Pingo de Fortaleza DIREÇÃO MUSICAL E DE ESTÚDIO – Tarcísio José de Lima GRAVADO NO ESTÚDIO SONOVISO (8 CANAIS) RIO DE JANEIRO – JULHO DE 1986 TÉCNICOS DE GRAVAÇÃO – Toninho Barbosa e Antônio Vicente TÉCNICO DE MIXAGEM – Toninho Barbosa MONTAGEM – Antônio Vicente DESENHO DA CAPA – Eurico Bivar FOTO DA CONTRA-CAPA – Wolney Oliveira FOTOS DO ENCARTE – Arquivo Particular de: Eusélio Oliveira, Firmino Holanda e Rosenberg Carirí TEXTO DE APRESENTAÇÃO – Nelson Augusto TEXTO DO ENCARTE – Firmino Holanda PROGRAMAÇÃO VISUAL DA CAPA E ENCARTE – Falcão IMPRESSÃO – IMPRENSA UNIVERSITÁRIA - UFC
FAIXAS BÔNUS
13 – 3ª MISSA PELOS MÁRTIRES DE CANUDOS (Pingo de Fortaleza)
VOZ E VIOLÃO – Pingo de Fortaleza VIOLÃO E ARRANJO – Gereba ÓRGÃO ELÉTRICO – Rafael Piragine SINOS – Pingo de Fortaleza e Dinho Nascimento GRAVAÇÃO – São Paulo em 1987 no LP LENDAS E CONTENDAS Composta após o artista participar da 3ª Missa pelos Mártires de Canudos na Bahia em 1986
14 – BELO MONTE – INSTRUMENTAL (Pingo de Fortaleza)
VIOLÃO I – Pingo de Fortaleza VIOLÃO II E ARRANJO – Marcos Maia GRAVAÇÃO – Estúdio Olho D’água, Fortaleza em 2000 no CD INSTRUMENTAL
15 – LADAINHA PRA CANUDOS (Gereba/João Bá)
Usaram as águas do rio Que nem as armas do medonho Pra destruir, a morada Terra Santa Do beato Santo Antônio
Penitentes e contritos Na sagrada procissão Pra bandeira de Canudos Nunciar ressurreição
VOZ E VIOLÃO – Pingo de Fortaleza PERCUSSÕES – Descartes Gadelha e Nilton Fiore GRAVAÇÃO – Theatro José de Alencar , Fortaleza em 1993 no CD AO VIVO Uma alusão ao açude Cocorobó, construído em meados de 1970, o qual inundou a Terra Santa de Canudos, numa tentativa de afogar a memória do lugar.
16 – A HISTÓRIA FARÁ SUA HOMENAGEM À FIGURA DE ANTÔNIO CONSELHEIRO (Ivanildo Vilanova)
Num profundo deserto sem Ter fonte Já surgiu um regime igualitário Onde um justo já sexagenário Fez erguer-se a cidade Belo Monte Para então deslumbrar o horizonte Sem maldade, sem crime e sem dinheiro Sem bordel, sem fiscal, sem carcereiro Mas foi morto e tomado por selvagem A figura fará sua homenagem À figura de Antônio Conselheiro
Quem viveu ao seu lado sempre quis Ter real o que era fantasia O reinado no céu não prometia Sim um reino na terra mais feliz Afinal só o povo do país Pode dar o retrato verdadeiro Deste líder autêntico e mensageiro Que alguém deformou sua imagem A história fará sua homenagem À figura de Antônio Conselheiro
Masseté, Uauá, Paraguassú Caatinga, Facheiro, Mororó Cambaio, Caipan, Cocorobó Monte Santo, Favela e Trabubu Beatinho, Abade e Pajeú Vilanova, Brandão e Fogueteiro Macambira, Lalau e o sineiro Timóteo, lendário personagem A história fará sua homenagem À figura de Antônio Conselheiro
Oh! Canudos país da promissão Foi injusta e cruel a tua guerra Tu que eras abrigo dos sem terra Sem direito, justiça, paz e pão O jagunço era apenas o irmão O fanático somente o companheiro Junto ao mestre encontrado o paradeiro Confiança, família e hospedagem A história fará sua homenagem À figura de Antônio Conselheiro
Só o Vaza Barrís tão solitário Vive lá como símbolo e uma prova De Canudos igreja velha e nova Linha negra, trincheira e santuário Malassombro de latifundiário Coronel, poderoso e fazendeiro Houve mesmo esse reino alvissareiro Ao qual muitos tomaram por miragem A história fará sua homenagem À figura de Antônio Conselheiro
Sertanejos morrendo de magote A bandeira rasgada era um molambo O quartel tem guarita era um mucambo A trincheira era a grimpa de um serrote A metralha um feioso clavinote Baioneta era a lança do carreiro A corneta o búzio do vaqueiro Parapeito e gibão sua roupagem A história fará sua homenagem À figura de Antônio Conselheiro
Quase dez mil soldados de elite Quatro bons generais lhes dando apoio Bivarque, arsenal, bóia e comboio Com dezoito canhões e dinamite Numa guerra civil sem Ter limite Não um simples conflito passageiro Brasileiro matando brasileiro Os vencidos mostrando mais linhagem A história fará sua homenagem À figura de Antônio Conselheiro
Foi a luta da foice e do fuzil O facão enfrentando a artilharia Uma nódoa na honra da Bahia Uma mancha no nome do Brasil Mas talvez que no ano de 2000 Esse nosso Nordeste brasileiro Seja outra Canudos por inteiro Com mais gente, mais arma (mais arte) e mais coragem A história fará sua homenagem À figura de Antônio Conselheiro.
VOZ E VIOLÃO – Pingo de Fortaleza PERCUSSÕES – Descartes Gadelha e Nilton Fiore GRAVAÇÃO – Theatro José de Alencar, Fortaleza em 1993 no CD AO VIVO O poeta Ivanildo Vilanova, como ninguém, conseguiu com beleza e força sintetizar nesses versos a História da Comunidade Igualitária de Canudos (Bahia – 1892 a 1897).
17 – DE QUIXERAMOBIM A CANUDOS – INSTRUMENTAL (Pingo de Fortaleza)
VIOLÃO I – Pingo de Fortaleza VIOLÃO II – Manassés de Souza VIOLÃO III – Marcos Maia VIOLÃO IV – Nonato Luiz GRAVAÇÃO – Estúdio Olho D’água, Fortaleza em 2000 no CD INSTRUMENTAL Inspirada em três momentos da vida de Antônio Conselheiro: sua árdua peregrinação pelos sertões nordestinos, a harmonia e a beleza da comunidade de Canudos, e por fim, a guerra e a destruição do arraial conselheirista.
18 – CANUDOS (Marinho Júnior)
Sertão morreu No fim de tarde Um breve passarinho Seguiu viagem Pairou nos campos Nas cidades Provou a vida, a fruta Liberdade Não tarde demais Canudos Não tarde demais Canudos O céu ferido chora A mágoa da tarde A noite esconde o rosto Da verdade Contos mal contados Da história Um manto enegrecido Na memória Minha avó não lembra De Canudos Minha mãe nem sabe De Canudos Homens, corações de pedra Velhos, crianças na guerra Página virada dos sertões
VOZ E VIOLÃO – Pingo de Fortaleza BAIXO – Jerônimo Neto EFEITOS – Hoto Júnior ARRANJO DE BASE – Marinho Júnior VIOLÃO DE AÇO, TECLADOS, ARRANJO E REGÊNCIA – Tony Maranhão GRAVAÇÃO – Pró Áudio Estúdio, Fortaleza em 1996 no CD CANTARES
19 – OUTROS 500 (Pingo de Fortaleza)
VOZ – Pingo de Fortaleza PERCUSSÃO E CORO – Batuque do Maracatu Áz de Ouro GRAVAÇÃO – Pró Áudio Estúdio, Fortaleza em maio de 2000. Música inédita Composta para o enredo do ano 2000 do cearense Maracatu Àz de Ouro
20 – CENTAUROS E CANUDOS (Pingo de Fortaleza/Guaracy Rodrigues)
Na terra ficou um risco De talhe, foice, cangaço. Corisco ficou arisco, A história apressou o passo, Quando o povo ergueu Canudos Com a força que tem o braço. Algo de novo nascia Pelo canto dos espaços, Centauros do apocalipse No mundo houve um eclipse, Mas logo se alumiou, Quando surgiu Antônio Conselheiro Com fogo pelo sertão inteiro, Com chumbo grosso nas armas E a promessa de libertar os brasileiros. Veredas desse sertão, Onde o povo luta e farreia, Nas águas do araguaias, Canudos é lua cheia.
“Ó meu Antoi Conselheiro, Que mora no pé da serra, Olha o som da corneta E olha a pancada da caixa de guerra. A estrela d’Alva é bonita, Quando vem rompendo a aurora, Os passarim ficam tristes, ai, ai, E as aves num canto choram.” (trecho de domínio popular coletado por Rosemberg Carirí e adptado por Pingo de Fortaleza)
VOZ E VIOLÃO – Pingo de Fortaleza PERCUSSÕES – Descartes Gadelha e Nilton Fiore GRAVAÇÃO – Theatro José de Alencar, Fortaleza em 1993 no CD AO VIVO |
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Texto do Encarte do elepê Centauros e Canudos
Palavras e sons traduzem aqui, nestes doze cantos de Pingo de Fortaleza, as imagens que a nossa memória guarda. A harmonia das cordas feridas veste o corpo dos poemas que, em contraste, falam das desigualdades sociais e das pelejas dos homens para consertar este mundo mal dividido. O cenário é o nordeste. A terra. Do sertão ao litoral. O mote é Canudos, símbolo de resistência popular, a partir do qual lutas e lidas d’outros tempos – o ontem, hoje e amanhã – são evocadas. Se o sonho Conselheirista hoje se cobre com as águas do açude Cocorobó, é de lá que ainda vêm sinais, toques e luzes neste repensar musical. Nada é mais vivo que a história. Quem tentar apagá-la há de se queimar. E quando dela se armam poetas e cantadores, as palavras têm canhões. Antônio Vicente Mendes Maciel / Quixeramobim / Ceará / 1828 – 1897 / Bahia / Comunidade do Belo Monte / Antônio Conselheiro. Foi professor primário, caixeiro, rábula, vendedor. Depois, inspirado na necessidade de bem servir os “mal aventurados” do sertão, como dizia, palmilhou todo o Nordeste, pregando a boa palavra, erguendo capelas. Mas sua religiosidade era outra, popular. Perseguido pelos donos das leis e de tudo, instalou-se com sua gente na velha fazenda Canudos, à margem do Vaza-Barrris. 1893. Como no Caldeirão – posteriormente também destruído pelo estado, sob as bençãos da ortodoxia católica – em Belo Monte a propriedade era coletiva. Enquanto a promessa Messiânica não se cumpria, trazendo um novo mundo com rios de leite e montes de cuscuz, o povo dali, livre da servidão semifeudal, trabalhava pelo bem comum. O paraíso se realizava aqui na Terra, já. E nas festas religiosas brincavam camponeses, ex-escravos, vaqueiros, artesãos, mulheres, crianças e guerreiros. Todos defenderiam a cidadela, quando o governo republicano, que não alterara a estrutura agrária do sertão resolveu extirpar a subversiva comunidade, que se rebelava contra a “Lei do Cão” e seus impostos. Tudo na mesma, assim como nos tempos da monarquia, quando, o povo se insurgiu em revoltas como a Balaiada, Cabanada ou Quebra-Quilo. O governo sustentou quatro expedições militares, de 1896 a 1897, contra os canudenses. Contra o ribombar apocalíptico dos canhões Krupp, lutavam guerrilheiros que eram amigos das pedras, matas, veredas, capoeiras. Gastando pouca munição, dormindo na mira, cuspindo chumbo e se benzendo depois. Dentro de uma carcaça bovina, espiões estudavam o movimento das tropas inimigas. Era a extensão da fortaleza labiríntica de palha e barro, que foi defendida palmo a palmo quando cinco mil soldados, “rugindo raivosamente”, invadiram-na. No final, Conselheiro estava morto e, encarando o exército, restavam apenas três homens e uma criança. Canudos não se rendeu. Com o brilho da luz própria, Lampião e o Diabo Louro Corisco não se renderam. Riscando caatingas com o fogo de fuzil e ponta de punhal, fustigaram a macacada corrupta. Corisco, Dadá, Lampião, Antônio Calixto, os Macambiras, Jararaca, Azulão, Antônio Silvino, Coiom, Quinquim, José Lourenço, Isaías, Severino Tavares, Joaquim Tranca-Pés, Pedrão, Siriema, Antônio Fogueteiro, João Carga D Água, Neco de Barros, Francisco Totó, Viveiros, José Bispo, Maria Rita, Santinha, Chico Ema, Bernebé, Joaquim Norberto... Oxossi, santo-guerreiro, contra a Besta-Fera da miséria organizada em séculos de latifúndio; amanhã, com sua lança vazando olhos de leões colonialistas; soltando esse Boi Coração / Bumbá / Tungão Pindaré, que ninguém pega. É o povo. Dentro do bicho brincam mulher, menino ou homem que espia a fraqueza do governo. E o animal, em carreira por caatingas, se corta, se fura, perde a cabeça, mas renasce. Zabumbando no peito o mesmo toque que tempera canções neste “Centauros e Canudos”. “A mim me interessa o povo, há três séculos capado e recapado, sangrando e ressangrando”, já dizia Casimiro de Abreu. Nesta cidade litorânea, estamos de costas para o mar de amanhã – o sertão que “virará praia”. Os rebanhos correm do campo à Capital e povoam calçadas e favelas. Aqui, misteriosos artistas de rua viram feras. Que espetáculo é este ? Que espetáculo é este ? A profecia de Conselheiro ainda não se cumpriu. A palmatória, a mentira, a dominação, a exploração do homem pelo homem podem até mudar de nome, mas tudo continua na cantiga da perua. “Se eu disser que a vida é feia, você leia sujeição”. Enquanto as víboras estiverem vivas, não se atingirá o sonho de fortuna e festa em terras de São Saruê. Num galope à beira-mar, as ondas batem na praia. Do sertão vêm outras vagas, trazendo o mormaço dos caldeirões a ferver. “Centauros e Canudos” nos fala disso tudo. Pingo de Fortaleza com sua viola, dispara a música sempre viva, necessária e atual. Firmino Holanda. |